Conto publicado
em um livro de coletânea, Organizado pela professora Vera Beatriz
Stumpf Sass e lançado pela Editora Edifapes, em 2001.
Pedro
Bala
Sou daqueles que se apaixona pelos personagens dos livros que leio,
diferente de personagens de filmes ou novelas. Choro; me emociono, me
atrapalho ao falar sobre cenas marcantes, meus olhos se enchem de lágrimas,
minha voz embarga e me sinto mal por ser tão emotivo. Meu terapeuta
dizia que isso revela o traço mais marcante de autenticidade
em minha personalidade. Isso me deixa feliz.
Agora, por
exemplo, me apaixonei por Pedro Bala. Pode? Jorge Amado escreveu o livro
há mais de sessenta anos. Tive toda minha adolescência
para lê-lo e não o fiz. No segundo grau, lembro bem, a
professora pediu que o lêssemos. Não lembro como contornei
a situação, adolescente que trabalha de dia não
tem muito tempo, e a angústia de trabalhar por dias melhores,
me deixava cego para outros assuntos.
Em meus
sonhos urbanos não havia lugar para Gabriela Cravo e Canela,
que na época era o sucesso da TV, preferia ver Lauro Corona e
Glória Pires em Dancing Days.
Jorge Amado,
para mim, era sinônimo de Gabriela Cravo e Canela, então
tudo dele deveria ser "ruim" igual. Quando vi o título
de Capitães de Areia imaginei que fosse alguma coisa tipo Os
Meninos da Vida, do Passolini. Desculpem se uso esse "do"
como se fosse amigo do falecido. Estudantes de Letras que gostam desta
intimidade: "do Saussure, do Bernstein, do fulano de tal",
como se fossem seus vizinhos. Também fui acadêmico de Letras,
mas não me atrevo a essa petulância com os mestres dos
ensinos teóricos. Com Passolini é diferente. Passolini
entrou pela segunda vez em minha vida, através da minha sala
de vídeo, com seus Contos de Canterburry e suas Mil e Uma Noites.
Ainda adolescente, chorei quando foi assassinado. Tenho certa "intimidade".
Imaginei
também se esse livro de Jorge Amado poderia ser alguma coisa
tipo Nossa Senhora das Flores, de Jean Genet. Não. Imagina que
um autor brasileiro, e da Bahia, que escreve aquilo (Gabriela...) teria
cabeça para um romance tão marginalmente delicioso.
Os anos
foram se passando e me vi obrigado a lê-lo na faculdade, para
a aula de Literatura Brasileira; assim como outros, que na adolescência
eram o terror de meus dias, principalmente por ter de fazer as terríveis
Fichas de Leitura.
Muito bem,
é preciso lê-lo não é, então vamos
lá. Hum! Hum! Hum. O queeeeeê, se falava isso naquela época???
Mas afinal, que ano se passa isso? Pelos meus cálculos entre
1929 e 1936, pois se o autor publicou-o somente em 37 e foi proibido.
Estou lendo isso aqui. Um loiro, na Bahia? Pois não é
que conheci um uma vez, em belo Horizonte, no Congresso da UNE.
De repente
pude compor melhor a cara de Pedro Bala, um menino loiro na Bahia, comecei
a questionar e ao mesmo tempo amorenar seu rosto, sua pele curtida pelo
sol forte. A força do personagem começou a me surpreender
e a me intrigar.
Quem é
você afinal? Que surpreendente magnetismo é esse que você
tem? Comecei a falar sozinho. Pedro Bala seria o alter ego de Jorge
Amado, questionei. Poderia ser, pois ele não é um personagem
muito comum. Mas e se fosse, não poderia ser apaixonante da mesma
forma? Os personagens de Genet são cativantes e no entanto são
marginais que se trazidos à nossa triste realidade nos dariam
um tiro, na primeira esquina, sem perguntar se queremos morrer. Esses
não nos cativam, pois parecem mais de carne e osso.
Pedro Bala
é um menino pobre que perdeu a mãe quando ainda era pequeno
e foi criado pelo pai, um líder grevista que morreu numa manifestação
com uma bala na cabeça quando ele tinha quatro anos. Daí
seu apelido, Pedro Bala; um menino da vida, um ladrão, porém
não escreve diários, mas se escrevesse, teria muito para
contar. Talvez não soubesse como escrever. Um menino perdido
em busca de um carinho, de uma mão que afague seus cabelos loiros
encacheados e lhe diga palavras de conforto para poder dormir e sonhar.
Quem é este pequeno príncipe, sem o glamour das letras
maiúsculas e nem o respaldo do personagem famoso, mas com o dobro
de charme, por não ser perfeito.
Pedro Bala
tirou meu sono por noites e mais noites, só meu primeiro conto,
Tchan... Tchan... Tchan... Tchan..., Tirou-me mais noites de sono, mas
mais pelo trabalho em prepará-lo do que pela emoção
de seu enredo. Diferente dos demais livros que li e que tinham um final
completo. Acho que Pedro Bala é um personagem do mundo. Jorge
Amado não é mais seu dono. Não podia mais controlá-lo.
Acho mesmo que nunca pode. Tive curiosidade em perguntar a ele, se o
tivesse conhecido pessoalmente. Pedro Bala corre livre pelas ruas da
Bahia. Pedro Bala está em muitos meninos que correm soltos por
aí.
Às
vezes me pego pensando no que teria acontecido a ele. Hoje um ancião?
Morreu, casou, teve filhos, netos? Vou por um anúncio no jornal:
"Procura-se Pedro Bala, com qualquer idade". Imagino James
Dean com 16 anos, interpretando Pedro Bala no cinema. A platéia
chorando, em êxtase, todo tempo. Preciso parar com isso, essa
história já se tornou um vício para mim.
O avião
está decolando e o livro me acompanha, no meu colo. "Apertem
os cintos", diz a voz no alto-falante (adoro dizer alto-falante),
"o avião já vai decolar", continua a voz. A
poltrona ao meu lado está vazia, é raro isso nessa época
do ano. Mas é melhor assim, nunca tenho sorte mesmo, ao meu lado
só sentam pessoas muito gordas ou bêbados.
Olho para
trás e vejo que a aeromoça conduz pelo corredor um senhor
de seus setenta e poucos anos, imagino. Ele vai sentar ao meu lado,
já prevejo. Dito e feito. Ele me cumprimenta gentilmente, retribuo,
não quero parecer mal-educado, mas espero que não puxe
assunto, poderia até ser interessante, mas nesses casos não
gosto de correr o risco.
Depois que
o avião estabiliza ele me pergunta o que vou fazer na Inglaterra,
o que faço no Brasil, a minha idade, e essas perguntas emendadas
me perturbam. Mas ele tem uma voz agradável, é educado,
não tem mau hálito e acha legal que quero ser professor
de Literatura Inglesa e Norte-Americana. Diz que vai à Inglaterra
dar uma palestra para uns sindicalistas e penso em que um brasileiro
tem a ensinar aos ingleses sobre sindicalismo, quase pergunto, mas poderia
melindrá-lo e não tenho esse direito. Pego o livro para
me distrair e ele sorri. Pergunta se é a primeira vez que o leio,
digo que não, que li dezenas de vezes, pois se dissesse que foram
centenas ele não acreditaria mesmo, pensaria se tratar de um
eufemismo, e nem eu mesmo tenho certeza se foram mais ou menos. Falamos
sobre o livro e é a primeira pessoa com quem converso, além
dos colegas nas análises em aula. Ele se parece com meu avô,
já falecido. Sabe tudo a respeito da história. Conhece
o enredo de ponta a ponta. Pelo menos é o que parece. Fico impressionado.
Afeiçoou-me a ele e mais uma vez sinto saudades do vovô,
que lia muito também, mas quando jovem, pois a política
e os afazeres para ganhar a vida não lhe deixavam muito tempo.
A viagem
segue tranqüila, conversamos um pouco, dormimos, nos distraímos
falando de filmes sobre aviões, mas logo vem a tona o assunto
sobre filmes-catástrofes e mudamos o teor da conversa. Admiro
seu conhecimento de mundo, novo nome que dei para cultura geral. Ele
toma whisky com gelo e eu peço a aeromoça uma cerveja.
Bebemos moderadamente e volta e meia falamos mais sobre o livro.
A viagem
é longa. São onze horas de vôo, de São Paulo
a Bruxelas. Lá, tomarei outro avião até Londres.
Imagino que ele irá na mesma conexão.
O avião
se prepara para aterrissar, aterrissa, descemos, andamos pelo aeroporto,
pelo free-shop, tomamos café, nos preparamos, embarcamos
noutro avião, menor, da British Airlines, que nos leva direto
a Heatrow, o mais famoso aeroporto do mundo.
Diziam, na
época, que de Londres decolava um avião a cada cinco minutos.
Nos aproximamos. Inicia então uma forte turbulência. Todos
gritam, menos nós. Ele me olha e sorri, de leve. Um senhor, inglês,
sentado na outra ponta da nossa fileira de poltronas, diz que é
normal nesta época do ano. Concordo com uma reverência
leve. Não me assusto, nem meu companheiro ancião.
Finalmente
chegamos. Não gosto quando o avião pousa, gosto quando
decola. A sensação de partir é muito mais excitante
do que a de chegar. Chegar pressupõe um porto seguro, uma chegada
a casa, de alguém, nossa ou da família. Essa sensação
de conforto é boa, mas não nesse momento. Nesse momento
desfruto de uma certa liberdade como nunca havia conseguido antes. Estou
do outro lado do oceano. Sei que não vim viver aventura na Europa,
mas não custa sonhar.
Meu novo
amigo, conhecido, seria o termo mais correto, se levanta e se aproxima
de mim, curvando-se para frente. Pergunta se preciso de ajuda na chegada,
com o uso da língua e a parte do desembarque. Agradeço
e me ofereço para ajudá-lo a levar suas malas. São
poucas, bem se vê que vai ficar pouco tempo. Passamos por todos
os portões que precisamos e finalmente saímos. Ele pergunta
se pegarei um táxi. Respondo que não, que pego um ônibus
ali mesmo, direto para Bournemouth, onde ficarei por vinte dias. Ele
sorri e aperta minha mão. Ponho as malas no táxi, ele
agradece, entra. Agradeço sua companhia, digo meu nome, uma vez
que até então não tínhamos ainda nos apresentado.
- Foi um
prazer conhecê-lo também meu jovem, ele diz gentilmente,
meu nome e Pedro Nascimento. Alguns ainda me chamam pelo meu antigo
apelido, Pedro Bala. É por causa do meu pai e forma como ele
morreu, com uma bala perdida, até mais.
Ele sorri
e acena pela janela do banco de trás do táxi, enquanto
o carro se move rapidamente e não posso fazer mais nada.