Erechim/RS -

 

 

 

Daubi Piccoli

Museu da violência

Esta semana que passou refleti a respeito da onda de desarmamento ‘que assola o país’, parafraseando o saudoso cronista Estanislaw Ponte Preta.

Não pretendo tecer críticas ou elogios à Lei, mas constatar um fato que, se não despertou em nenhum cidadão a mesma idéia que me ocorreu, poderei estar levantando agora, com este texto, o questionamento.

Muitas armas que foram entregues à Polícia Federal serão destruídas e algumas estão sendo requisitadas por museus para serem expostas.

Pensem no paradoxo da situação: queremos terminar com a violência, exterminando com as armas e, no entanto, querem, alguns, mantê-las para lembrar à população da sua importância histórica.

Sem apelar para a ironia, de que alguma arma pudesse estar exposta acima de um cartaz, contendo o número de pessoas por ela abatidas, questiono o modo como se tratará o assunto daqui para frente. Serão lembradas aos mais jovens, suas verdadeiras funções, num futuro próximo (para isso também servem os museus), de seu papel, desempenhado no passado? 

Podemos lembrar do paradoxal comportamento humano em vários assuntos que lhe dizem respeito no dia-a-dia, como: O fumo é bom para a Economia, enquanto o cigarro é péssimo para a Saúde. No meio dessa briga de Ministérios, está o prazer e a ruína dos fumantes. Nada que o comportamento humano já não tenha deixado transparecer em diversos outros assuntos, nesses milhares de anos comandando o planeta, no topo da Cadeia Alimentar

Voltemos às armas e seu extermínio; Hemingway deve estar se remexendo no caixão, como se isso fosse possível. Mas é, justamente, essa força de expressão que conduz o ser humano e o leva a compor seu intelecto e o cabedal de seu conhecimento.  

Imaginemos então, e agora sem abstrações, um professor, ou professora, percorrendo um museu e mostrando a seção de armas aos seus alunos e estes perguntando para que elas serviam.  

A  cada resposta dada estariam avivando a memória de tudo que se queria apagar e esquecer. Nesse ponto, consegue-se entender o motivo de Rui Barbosa ter mandado queimar os Arquivos da Escravidão, mas não o motivo de se manter viva a memória da violência, a menos, é claro, que se queira usar o paradoxo do fumo e do cigarro, explicando que armas também eram usadas como pratica de esportes, entre outras explicações que ‘explicam, mas não justificam’. Desculpem a redundância. 

Difícil será convencer os futuros cidadãos de que eles devem pensar no passado violento de seus antepassados sem tentar imitá-los um dia, usando aquela velha e péssima teoria, ou prática, do ‘faça o que eu digo, não o que faço’, muito comum em tempos de ontem, hoje e, certamente, de amanhã.

10.12.2004

 Editorial 

 

 

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