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Dirceu Benincá*
Tinha
uma vírgula no caminho!
Carlos Drummond de Andrade encontrou uma pedra. Ela estava
no meio do caminho. E foi um fato tão marcante que ele declarou: “Nunca
me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no
meio do caminho...”. A questão do poeta segue atual. Pelos caminhos,
há muitas pedras e pedras para muitos. Há caminhos feitos para poucos e
poucos caminhos feitos. Não obstante a tudo, quando as coisas parecem
engessadas, ainda vale dizer que o caminho se faz caminhando.
Mas, deixemos as pedras de lado para ficarmos ao lado
delas. A prosa aqui tem a ver com um sinal de pontuação. Pois,
parafraseando o imortal Drummond, sobreveio que naquela frase tinha uma
vírgula, tinha uma vírgula naquela frase. Parecia um sinal
insignificante, mas fazia sentido. Sem ela, o significado ficava
invertido. A vírgula não foi posta e o caminho ficou sem retorno. De
fato, as vírgulas são uma questão séria. Não raro encontra-se
dificuldade para baixá-las no espaço devido. Posta indevidamente, uma
vírgula pode ferir o próprio autor, já que, conforme sua origem latina,
significa pequena vara.
Vírgulas não se lançam apenas para ornamentar o texto.
Nem tão somente para autorizar o leitor a respirar no meio do período.
Pequena marca, ela pode remarcar ou desmarcar o sentido da frase e o texto
por inteiro. Cada uma reivindica o lugar correto para ser assentada. No
texto e no contexto da vida, uma simples vírgula pode fazer grande
diferença. Uma vez deslocada, pode custar uma vida. Assim era a ordem
original ao combatente: “Irás, voltarás, nunca perecerás na guerra.”
O comandante, contudo, relocou a vírgula para depois do “nunca”,
escrevendo: “Irás, voltarás nunca, perecerás na guerra.” O
resultado foi exatamente oposto. Assim dito, para a guerra ele se foi e
não voltou. Ocorre que tinha uma guerra no mundo, no mundo tinha uma
guerra... Ou muitas...
Fora estes episódios violentos, que não chegam no fim
enquanto no fim não se chega, tem as questões matemáticas. A pergunta
foi composta nestes termos: – Qual a metade de dois, mais dois? Sem
atenção à vírgula, o interlocutor respondeu: dois. Porém, respeitando
a bendita vírgula e seu conteúdo operacional, a sentença fica com um
saldo de três. Na vida, o rigorismo pode ser cruel. Porém, em muitas
situações, a falta dele pode produzir efeitos dramáticos.
Para além das façanhas bélicas, econômicas, sociais ou
culturais de uns sobre tantos é oportuno dizer: Não importa o que
fizeram de nós; importa o que fazemos com o que fizeram de nós. Dito
diferente: Não importa onde puseram as vírgulas e onde querem impor os
pontos. Importa, isso sim, que podemos reescrever o texto. E, não só.
Podemos escrever textos novos. Mas, não podemos, isso não, descuidar dos
sinais. Também não vale pensar que apenas alguns podem escrever o “texto”,
porque a eles foi dada a capacidade de interpretar a história.
A pedra que o poeta viu, talvez não lhe teria sido
inesquecível se ela não estivesse no meio do caminho. E ninguém sabe se
ele a tirou de lá. Também, é ignorada a interpretação que fez dela.
Se a teve como um obstáculo, como um assento ou, em primeiro plano, como
primoroso objeto de seu poema. Quanto à vírgula... Bom, esta não será
posta ou reposta enquanto não fizermos outra história da história que
fizeram de nós!
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