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Dirceu Benincá*
Dores
de uma tese
Aquela dor doía igual a uma dor de parto. Como de fato
era um parto, a dor doía de sua própria natureza. Contudo, não se
tratava de uma dor que não devesse ser sentida. Também não era uma dor
que doesse por si só. Ela doía o seu custo, que custava uma vida. E
custando uma vida que vem, uma dor não soa tão dolorida. Então, doendo
pouco ou doendo muito, essa dor é sustentável porque é uma dor
satisfatória. Não é dor de morte. É dor de vida e de vitória! Pior
dor é aquela que não só dói como quer, senão que dói sem querer sem
nada de positivo em troca oferecer.
A dor é a questão em tese, que quando dói de verdade
não tem nada a ver com a teoria que a ela possa se referir. Na prática,
a tese da dor é outra. Falo aqui das dores que uma tese acadêmica pode
provocar em quem se mete a fazê-la. Não interessa o tema, qualquer tese
produz dor. Talvez seja o inverso: sem dor não se produz uma tese. Menos
pior (ou melhor) quando a dor que essa tese produz é uma dor de parto de
um novo saber.
Nas teses, em geral é assim: De primeiro vem a dor do
tema, que se mistura com a dor do objeto propriamente dito. Tema e objeto
se juntam com os objetivos da pesquisa que a tese deve perseguir. Aí
seguem muitas outras dores com variação de seqüência, de intensidade e
de combinação. Tem a dor dos olhos de tanto ficar mirando o livro e/ou o
computador. Tem a dor de cotovelos, diferente daquela das proezas dos
românticos apaixonados. Essa é uma dor de apoio. É que a gente acaba se
apoiando tanto com os cotovelos sobre a mesa que eles não resistem e
doem. Porém, com o aparecimento dos calos na referida região, essa dor
tende a diminuir.
Em tempos de modernidade avançada nem passa pela cabeça
fazer uma tese sem computador, o “pc” que, para alguns, se encolheu e
se fez “notebook”. O tal equipamento é uma mão na roda. Mas, tem
vezes que ele faz os nervos ficarem à flor da pele. Por associação ou
não, quando doem os nervos também se põem a doer certos músculos e
juntas. Quem não tiver tendinite, dê graças a Deus... Esta é uma das
dores da dita modernidade líquida, contemporânea de uma dor de caráter
abrangente que acharam por bem chamar de stress. A essas alturas, chega-se
a uma opinião quase unânime: Todas as dores que por bem não vêm, são
dores que fazem mal.
Adiante com a tese, pois ela ainda não está pronta.
Quando assim estiver, em tese se terá que a dor também sumirá. Enquanto
está em gestação, a tese também faz doer a bunda. Não se creia que se
faça uma tese a trote ou a galope. Se assim for, não sairá uma tese,
mas uma caca. Então, não há jeito. Queira ou não queira, tem que
sentar e tornar a sentar muitas vezes. A propósito, dores adicionais
virão. Terá aquela específica da coluna. Haverá outras ainda que nem
esfregando acalma. É a dor, por exemplo, de ter ficado um dia ou mais com
a bunda na cadeira e ter conseguido produzir pouco ou quase nada que
presta. Essa é por demais, pois a dor tem sensação de frustração.
Dores físicas, psicológicas e sociológicas se aliam,
via-de-regra, às dores de bolso. Não é sem custo econômico que se pode
fazer uma tese ou dissertação. Ademais, dói saber que são poucos os
que, num país como o nosso cheio de muitas outras dores, podem chegar ao
nível de sentir dores de tese. Continua doendo, outrossim, quando se vê
que a educação se passa cada vez mais por uma mercadoria e, como tal,
enquanto a uns enobrece com seus títulos, a outros fere com a dor da
exclusão por ela produzida.
A mim parece que a dor de uma tese poderia ser menor ou o
prazer por ela gerado ser um pouco maior se se pudesse fazê-la nestes
termos mais poéticos. Infelizmente, tem que enquadrar dentro do modelito
acadêmico senão não vira tese. Por fim, sinto que a dor de quem faz uma
tese vale a pena na medida em que tem um fim que não seja o puro e
simples canudo. Para concluir esse prognóstico de tese, creio que a dor
de uma tese não será em vão se ajudar a diminuir a dor do povão. Tanto
mais valerá a pena sentir essa dor quanto mais ela for capaz de ser uma
dor de parto de uma sociedade mais humana, justa e solidária.
15.12.2004
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