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Dirceu Benincá*
Os profissionais da esperança
“Meu nome é Moacir. Sou brasileiro nato. Profissão: Esperança”.
Assim se apresentou um dos
participantes do I Fórum dos Conviventes dos Projetos da Associação Rede Rua.
O evento foi realizado dia 17 de
outubro tendo por local o Albergue Pousada da Esperança, em Santo Amaro – SP.
Cerca de 150 moradores de rua
marcaram presença.
A questão foi posta: Quem somos nós?
As respostas derraparam na ladeira
da exclusão. Depois houve outra pergunta: É possível mudar a nossa realidade?
Que se possa dar um tombo na miséria
e viver com mais dignidade, isso não pareceu fora de cogitação.
Ao menos foi o sonho expresso por
muitos.
Mas, como fazer na prática para
transformar esta situação? “Quem vai transformá a nossa realidade é nois
mesmo. Pra isso precisa trabáio”, afirmaram certeiramente alguns.
Sempre se disse que a “esperança
é a última que morre”. Contudo, só de esperança ninguém vive.
Com que renda viverão, então,
esses que viraram profissionais da esperança?
Com que salário aposentar-se-ão?
Além de professar a esperança, é
preciso dar-lhe razão, braços, pernas, corpo, concretude. Sincronizar a
esperança de vida digna neste mundo com a esperança de futuro depois deste
mundo.
Para que a esperança não fique a
“Deus dará”, necessita-se do dito “trabáio”.
Enquanto alguns rogam à Santa
Edwiges (16/10), esperando soluções meio mágicas, outros recolhem forças na
união e na organização para construir alguma alternativa. “Temo ideiando
trabaiá junto”, declarou Jocelino, em Erechim – RS.
Membro de uma associação de
catadores, ele tem consciência da importância de seu trabalho: “Uma boa
parte desse material que tá aqui no galpão de reciclagem era pra tá nos
riacho, nas rua, nas boca de lobo... Agora nóis temo ideiando trabaiá nas
escola pra educá as criança e também os adulto sobre a preservação do meio
ambiente...”.
Se a forma gramatical não está
bem, o conteúdo tira de letra.
“Ideiar” é uma nova conjugação.
Os dicionários ainda não a conhecem. Mas, nada impede que seja utilizada.
Ao invés de reprovar a inflexão,
prefiro ver na inovadora forma verbal a fusão de uma “idéia” com um
“ideal”.
Nesse sentido, “ideiar” uma ação
– como a que se refere Jocelino – não tem nada de ruim. Antes, ao contrário:
É altamente positivo “ideiar junto”, em mutirão. E melhor ainda
“ideiar” um trabalho ecológico, social e pedagógico como este.
Tenho me convencido cada vez mais de
que o trabalho realizado pelos catadores (as) de materiais recicláveis em
nossas cidades aponta exigências de mudanças radicais da sociedade consumista,
orientada pela cultura do descartável.
Talvez muitos ainda não se hajam
dado conta de que eles – normalmente tidos como escória social – têm um
recado a nos dar.
Embora muitas vezes constrangidos e
calados, cabisbaixos e “invisíveis”, gritam sem cessar com voz profética:
Precisamos salvar a casa comum e todos os seus habitantes.
Como afirma Paul Singer, o que muda
a consciência de um povo são experiências pequenas, práticas e com êxito.
As experiências de organização
solidária entre os mais excluídos vêm se multiplicando pelo Brasil. São
pequenas associações e cooperativas que derivam de grandes causas como a geração
de trabalho e renda, a promoção da dignidade, a preservação ambiental e o
estímulo à construção da autonomia cidadã.
A luta sempre vale a pena quando a
causa não é pequena. “Ideiar e trabaiar junto” precisa ser uma causa
assumida por todos, especialmente pelos profissionais da esperança, com a
indispensável parceria do poder público, da classe empresarial e do chamado
terceiro setor.
Estamos, pois, desafiados a sermos
artífices da esperança para construirmos uma sociedade mais humana e solidária.
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