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Dirceu Benincá*

Quando a política se torna “Severina”

Poeta de outros tempos foi João Cabral de Melo Neto. Em prosa disse coisas que seguem atuais. Fez a crítica, dando existência à “Morte e Vida Severina”. Falou da realidade. Alfinetou a ditadura brasileira e os mecanismos que produziam os acúmulos espúrios e a miséria escancarada. Desigualdades sociais que, lamentavelmente, persistem e aumentam.

Pois bem, nosso João tomou a pena e escreveu: “Essa cova em que estás, com palmos medida, é a conta menor que tiraste em vida./ É de bom tamanho, nem largo nem fundo, é a parte que te cabe deste latifúndio./ Não é cova grande, é a cova medida, é a terra que querias ver dividida”. Pobre, triste, “viramundo”... Decerto falava de um nordestino, de um sulino, de um nortista... De um e de inúmeros brasileiros e latino-americanos. Sei lá... De um peregrino, de um retirante, de um sem terra, sem teto ou migrante; de um sem trabalho e sem esperança, de um excluído que se vai pelo mundo sem destino...

Severino devia ser um dos tantos atingidos pela seca do sertão. Um cidadão impedido de sê-lo como muitos pelo Brasil afora por causa da cerca do patrão. Triste situação sempre acompanhada de injustiça, quando não de violência assassina... Se, por um lado, a lei garante o direito de ir e vir, tanto quanto à igualdade e à dignidade, a prática mostra que uns de tudo fazem para a riqueza não dividir. Sobem ao poder com a bandeira na mão. Bandeira que nos causa indignação porque tem as vivas cores da moderna corrupção.

Nos tempos de agora, para nossa vergonha e escândalo nacional, temos outro Severino. Também ele procede da região Nordeste como o de outrora. Mas, suas condições, seus propósitos e seus feitos são bem diferentes. Integra uma ala de políticos ainda existentes neste país chamada “corja”. São os que legislam em causa própria sem qualquer escrúpulo e ainda se gabam publicamente disso.

O que fez este Severino Cavalcanti (PP – PE) é inadmissível. Já na primeira reunião como presidente da Câmara dos Deputados (dia 23 de fevereiro) aprovou o aumento dos deputados. E não foi pouca coisa. Fez subir o salário dos atuais R$ 12.847,00 mensais para R$ 21.500,00. Um aumento de 67% numa tacada só. E mais: Elevou a verba de contratação de assessores para os gabinetes dos deputados de R$ 35 mil para R$ 43.750,00. Significa um acréscimo de 25%. Como se não bastasse, fez a medida ter valor retroativo a janeiro deste ano. Isso tudo deverá custar ao Congresso, em 2005, no mínimo R$ 177,1 milhões (Cf. Folha de S. Paulo, A 10, 24 de fevereiro de 2005).

O pior é que não se trata de filme de ficção. É fato consumado dentro de um governo que foi eleito para ser diferente. Até quando vamos agüentar com estas cenas que causam horror à Nação? Enquanto em Brasília saqueiam os cofres públicos, em São Paulo organizações que trabalham com população em situação de rua não estão recebendo há alguns meses o dinheiro dos convênios feitos com a Prefeitura Municipal. Os diversos serviços prestados por tais organizações a este povo (que sobrevive na rua da amargura) estão com os dias contados se não houver o repasse dos recursos.

Que país é esse? Que contradições são essas! Por conta de uns poucos “Severinos” que vivem nas Câmaras, multidões permanecem na rua, na pindaíba, na pura esperança ou no lixão. Quem dera “Severinos” não tivéssemos mais, então! Nem se ouvisse mais os gemidos que procedem da exclusão! Será que os muitos “Severinos” poderão ter um chão, um trabalho, um salário, comida, vida digna, educação? Será isso possível enquanto os “Severinos” das Câmaras ficam com o grande quinhão? Enquanto a política continuar “Severina”, nossa luta não pode parar. Precisamos protestar, nos organizar, lutar pela transformação...

                                                                           

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*Dirceu Benincá
Mestrando em Ciências Sociais – PUC/SP


dirceuben@ig.com.br

 

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