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Dirceu Benincá*
O que será desses pequenos?
Farol vermelho: parada obrigatória! Aí mesmo descortina-se a
cena. Ela é amplamente conhecida, dado que está em cartaz há muito tempo.
O
enredo não tem nada de humor e o filme não é de ficção. Por isso, incomoda.
Mas, o que incomoda propriamente não é o elenco, senão as razões pelas quais
os personagens continuam ali no palco da rua dia após dia.
- Moço, tem 10 centavos? A invariável pergunta resulta de
uma situação intrigante. A pobre criança está com os pés descalços,
pisando o asfalto aquecido por um sol de uns 35º C.
A poluição alcança
níveis insuportáveis e o trânsito é violento. Afinal, estamos em São Paulo,
capital de tudo. Todos estão fatigados com o corre-corre. Já é hora do
almoço, muito embora o ritmo da grande cidade quase sempre faz a gente perder a
hora.
Os segundos à frente do farol
fechado permitem um pequeno diálogo. – O que você vai fazer com 10 centavos?
– Moço é pra comprar pão!
A resposta parece conter uma
interjeição do tipo ‘será que você não vê que é pra isso’?
De fato, a fome se estampa naquele
rostinho sofrido. Então, prossigo: – Quantos anos você tem? – Dez,
responde, reprovando o interrogatório.
Mal aprendeu o valor do dinheiro e já tem a noção exata do
que significa a falta dele.
Por último, ainda arrisco: – Como
é seu nome? – Luana! – E o seu pai, onde está? – Eu não tenho pai.
Enfim, deve ter pensado: Que cara chato! Por que quer saber essas coisas? É que
eu vinha com o Darcy Ribeiro na cabeça. Esse antropólogo escreveu um livro
fantástico intitulado “O povo brasileiro”. Falando sobre o destino
nacional, ele diz que somos um “povo em ser, impedido de sê-lo”. Um povo em
que muitos estão afundados na “ninguendade” (1995:453). Enquanto bem poucos
viram celebridades, milhões levam uma vida como “ninguéns”.
Pelos faróis da cidade, passa gente
e passam veículos, passa tudo e passam todos. Afinal, a rua é para passar e
não para ficar. Ainda mais nessas condições inumanas. “Luana” e todos os
“ninguéns” têm o direito à dignidade, à cidadania e à felicidade. Mas,
a persistirem a indiferença e a omissão do poder público e da sociedade em
geral, o que virão a ser esses pequenos?
Futuros assassináveis, a exemplo do que vimos
assistindo? Vamos permitir que isso continue acontecendo?
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