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Dirceu Benincá*

Os pobres em direitos

Já se vão 56 anos desde que foi aprovada a Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral das Nações Unidas (ONU), no dia 10 de dezembro de 1948. Em seu artigo 1º, o documento reza esplendidamente: “Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos...”. Adiante, no artigo 7º, sublinha-se o mesmo elevado princípio: “Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei...”.

No mundo, entretanto, as coisas andam meio assim e meio assado. Uns são mais iguais que outros. Existem os pobres em direitos e os direitos dos pobres, pobremente respeitados. Nesses casos, os direitos se esvaem pelo avesso da lei. Há, por exemplo, uns que vivem sem precisar trabalhar e outros que não conseguem trabalho para viver. Tem os que não sabem como gastar o tempo ocioso e os que sacrificam o próprio direito à ociosidade (descanso e lazer) com afã capitalista ou simplesmente para prover a sobrevivência.

Em suma, é como segue: O descompasso vira regra e fere o artigo 23º - direito ao trabalho e justa remuneração. Tem-se, então, que as regras (leis) deixam de ser boas quando as exceções ficam melhores (para alguns). Mas, ainda bem que não paramos de manifestar nossa indignação, gritando ou cantando como fazem os Titãs: “A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte. A gente não quer só comida. A gente quer saída para qualquer parte. A gente não quer só comida. A gente quer bebida, diversão, balé. A gente não quer só comida. A gente quer a vida como a vida quer”.

A história, as virtudes e também os vícios se fazem aos ciclos. Ou, se quisermos, às custas da repetição e das retomadas nas voltas que a vida dá ou nas voltas que damos com a vida. Ao irmos e virmos e vermos prosperar a fome, as injustiças e as desigualdades sociais, podemos achar que essas contradições não têm solução. Assim o dizia Rui Barbosa em sua sábia constatação: “De tanto ver crescer as injustiças, de tanto ver aumentarem as nulidades, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, rir-se da honra, ter vergonha de ser honesto”.

Por outra parte, de tanto persistir pode-se aprender a fundamental prática da solidariedade e da paz como fruto da justiça. Trata-se de uma opção de vida e de projeto, dado que os princípios, as leis e os direitos nós os temos devidamente escritos. Tanto o trabalho quanto o ócio; também a religião, a saúde, a alimentação, a liberdade, enfim, a vida... Tudo é direito inalienável de todo ser humano. Nesses termos, é preciso mais uma vez reafirmar: Temos de superar a pura prosa, pois que a vida para muitos é dura, quando não, muito dura.

Na sociedade, ora luta-se pela igualdade ora pela diferença. Há que ficarmos atentos, pois ambas são importantes, cada qual em sua vez e condição. A propósito, escreve Boaventrua de Souza Santos: “As pessoas e os grupos sociais têm o direito a ser iguais quando a diferença os inferioriza, e o direito a ser diferentes quando a igualdade os descaracteriza” (In: Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 48, junho/1997, Coimbra, p. 30).

Se os pobres, marginalizados, excluídos – ou tantos outros termos usados e polêmicos – têm direito a ter direitos (ao que ninguém, em tese, se opõe), necessário será que os direitos sejam de fato. Entre os direitos e os fatos (a realidade) existe espaçosa medida para a organização e a luta dos pobres, bem como para a solidariedade e a dignidade entre todos.

08.12.2004

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*Dirceu Benincá
Mestrando em Ciências Sociais – PUC/SP


dirceuben@ig.com.br

 

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