Inteligente, sonhador e ativo. Assim era o jovem Raul.
Empenhava-se com todas as forças para alcançar seus objetivos. Porém,
vivia intrigado com as injustiças sociais, com o horror da violência e
com a indiferença das pessoas. Meio desiludido com o mundo, resolveu sair
da cidade e recolher-se numa floresta. Lá se deparou com um tigre ferido
por caçadores. Então se pôs a certa distância para observar o que iria
acontecer com o animal.
O jovem permaneceu na floresta diversos dias e pode ver o
extraordinário. Uma lebre, animalzinho indefeso, todas as tardes fazia
uma visita para o tigre e lhe levava um pouco de alimento. Parecia que a
profecia de Isaías estava se cumprindo: “O lobo e o cordeiro pastarão
juntos, o leão comerá capim junto com o boi...” (Is 65,25). Raul
pensava consigo: Oxalá os humanos pudessem imitar os animais em atitudes
de solidariedade como essa!
Convencido de que só a solidariedade poderia tornar o
mundo “mais humano”, decidiu fazer um teste. Foi até a estrada que
cruzava pela região. Ficou deitado na beira daquela rodovia durante um
dia inteiro, fingindo-se de ferido. Muitas pessoas passaram por ele, mas
ninguém o socorreu. Aí o jovem lembrou-se do episódio do bom Samaritano
de que fala a Sagrada Escritura. Mas, este não lhe apareceu...
Decepcionado, voltou para a floresta. E refletia: A
humanidade não tem mais jeito; a insensibilidade e o individualismo
tomaram conta do coração de todos; ninguém se preocupa com o problema
alheio. Estava por concluir que a solidariedade vista entre a lebre e o
tigre já não era possível entre os humanos. De repente, apareceu um
sábio e lhe disse: ‘Meu jovem, se queres fazer a experiência da
solidariedade ponha-te de lebre não de tigre ferido’!
Aquela palavra transformou a mentalidade e a vida de Raul.
É preciso antes de tudo ser promotor e artífice da solidariedade do que
desejá-la em benefício próprio com artimanhas falsas. Sem solidariedade
verdadeira não haverá paz. Eis o grande mote da Campanha da Fraternidade
(ecumênica) de 2005: “Felizes os que promovem a paz”I Por outro lado
a história da lebre e do tigre nos faz pensar sobre quem (ou o que)
estamos alimentando.
A respeito dos tigres que devoram a vida, a dignidade e os
direitos do povo, especialmente dos mais excluídos, queremos justiça já
aqui na terra. Sem justiça também não existe paz. Fora com os tigres
identificados com os impérios econômicos, com os latifundiários
gananciosos, com os inescrupulosos e com os assassinos de irmã Dorothy
Stang e de tantos outros que defendem a causa dos pobres. Cuidemo-nos para
não nos tornarmos pequenos tigres. Sejamos solidários como a lebre, mas
atentos para não sermos condescendentes com a violência dos tigres.