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Andréa Bezerra de Albuquerque*
'Brasil,
mostra tua cara!'
No próximo mês os deputados retomam
suas atribuições e para que a Lei de Biossegurança seja colocada em
pauta em fevereiro, o trabalho reinicia agora em janeiro.
O trabalhos de todos eu digo, dos
favoráveis aos OGMs; dos contrários aos transgênicos, dos contrários
às pesquisas com células-tronco aos favoráveis às pesquisas com todas
elas, embrionárias e adultas.
A polêmica novamente ganha vida.
Grupos se acusam de discussões
apaixonadas. É apaixonante mesmo, o tema mexe com a vida, a natureza,
mexe com ciência e com a morte.
Difícil não opinar apaixonadamente,
seja de que lado estiver, já que o assunto pouco permite o meio-termo.
Estou do lado das pesquisas, de abrir o
leque à possibilidade de cura com a terapia celular. Estive em Brasília,
conversei com deputados, senadores, ouvi conselhos, críticas, ouvi
ministros e assessores.
Pensei sobre transgenia, sobre novas
terapias, sobre agricultura e medicina.
Com raiva ouvi grupos contrários, e
com igual paixão chorei com cúmplices e abracei os novos amigos.
Comemorei a vitória no Senado, na Comissão de Biossegurança e sofri com
a retirada do texto na pauta de dezembro da Câmara.
Dizem que o projeto de lei de
biossegurança não foi votado porque a ministra do meio ambiente ameaçou
pedir demissão se o texto tramitasse na casa no último mês. Dizem
também que um manifesto com assinaturas de organizações ligadas à
Igreja Católica foi entregue ao presidente da Câmara, João Paulo Cunha,
o pedido era o mesmo: a retirada da discussão.
É de enlouquecer a falta de laicidade
que temos no Brasil, é de se admirar a união de CNBB, MST e tantas
siglas por uma luta contrária a tudo que acredito, mas igualmente
apaixonada.
Esta raiva toda que sinto tem um quê
de admiração, de identificação, porque opostas com certeza, mas todos
estão lutando por uma causa.
O que entristece, o que magoa não é
tanto a mistura das siglas, mas sim a omissão de tanta gente.
Onde estavam as associações de deficientes físicos quando somente um
grupo de pessoas visitaram gabinetes, procuraram jornalistas e
acompanharam audiências públicas?
Onde estão agora as associações das
mais diversas doenças? Cadê a voz dos grandes hospitais e centros de
saúde? Cadê a coragem de dirigentes que zelam por pacientes e acalentam
familiares.
Porque ainda estão caladas
instituições sem fins lucrativos, organizações não-governamentais das
áreas social e da saúde?
Cadê vocês de hospitais públicos e
privados? Querem ou não o avanço da ciência?
Cadê você médico residente, cadê o
médico experiente também?
Cadê você familiar, se quiser chorar,
se quiser lutar, se puder, faça-o pela pesquisa, faça-o no centro
democrático de seu município, na Câmara de vereadores, na assembléia
legislativa de seu estado, no Congresso Nacional.
Cadê o povo de Brasília que não
esteve conosco na Câmara?
Se quiser chorar faça-o, mas faça-o
junto a um deputado porque depois não vai adiantar.
As pesquisas demoram, as doenças não.
Pelo fim da omissão nós os convocamos
para que cada um comece este 2005 com coragem, com atitude, para que todos
que se beneficiarão com as novas pesquisas não passem outro carnaval sem
a fantasia de que um dia ninguém terá medo do novo.
Tampouco terá medo de expor sua
opinião, seu rosto, seu nome, doença, titularidade e sobretudo sua
instituição.
14.01.2005
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